quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Remédio para medo da morte

- Eu não quero viver muito, quero viver bem.
Eu achava que não tinha cura para o medo da morte. De fato, talvez não exista mesmo. Mas essa frase me serviu de remédio. Logo eu, que me gabo de ter entendido que devemos “beber menos, beber melhor”. O conceito aplicado à cerveja não havia sido aplicado à vida...
Mas então, por quê querer viver tanto? Talvez a ideia tola de que fazemos tudo só e que são nossas as nossas ideias, os nossos planos e os sonhos dos quais apenas participamos. Participar. Esse parece ser o verbo que desabrocha nessa nova primavera da vida. De tudo participamos e nada realmente fazemos. Como fazer algo se nem mesmo podemos reclamar autoria? Sabemos que o recurso é sim utilizado, mas isso são doenças sistêmicas da nossa civilização. É vontade de concentrar. O egoísmo reina. O indivíduo parece estar acima do a coletivo. E, tendo em vista tudo isso, não posso querer viver tantos cem anos assim.
A frase supracitada me fez ver uma coisa: sempre quis viver muito, por ter muitos sonhos muitas ânsias, e achar, talvez de forma ingênua, que dependem só de mim. Essa enganação tem sido minha dor ao lembrar que pouco tempo me resta e já me aproximo de um quarto de centenário. Só que ao ver que “temos que viver melhor”, na verdade, percebo que de nada adianta viver cem anos e se 40 desses anos foram mal vividos. Preciso viver muitos anos bem, anos que dedicarei a esses projetos que não são meus, somente. Na verdade, eu apenas participo deles. Participarei deles, seja lá qual for a posição que eu ocupar, e deixarei um legado, mas não para ter meu nome lembrado, mas para que parte de mim esteja nessas coisas. Por isso participar. Só quem participa deixa uma parte de si no mundo. O que eu quero não é deixar meu nome, coisa inútil, mera convenção, título que serve para tão somente identificar um ser humano, algo que compartilho com mais milhão de gente, que fala tanto de mim quanto a cor do meu cabelo. O que eu quero mesmo é deixar parte de mim nesse mundo. Ser imortal, não é ter o nome estampado em livros de história. Isso é mera consequência de contribuição. Há tantos imortais anônimos ou quase anônimos, e talvez mais importantes que tantos destes de grande nome. Querer deixar o nome é dar importância maior ao título do que para a ação. A ação é que se conecta com o mundo. O título só se conecta com o código, e este é falho. É humano e por isso falho.

Por quê temer tanto a morte então? Não há motivos. É certo que teremos tempo suficiente, há de se ter o tempo, para deixar as ações encaminhadas. Ações que precedem a minha existência e ainda mais minha consciência delas. Ações sem autoria. Ações que se conectam por entre os vários cantos do globo, como uma rede invisível de pensamento, uma espécie de noosfera. Descansar em paz é saber que participamos de ações suficiente para que nunca sejamos considerados mortos. Há muitos que morrem muito antes do fim. Que não vivem há muito tempo. Como diz Veríssimo “quem quase morre ainda vive... quem quase vive já morreu”. Estar presente é mais que estar de corpo presente.

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